Vida do Bardo #4 — Boa Companhia

Boa Companhia “Você me ama?” “Sim, eu te amo.” “Você não vai me abandonar, vai?” ele me disse com sua […]

Boa Companhia

“Você me ama?”

“Sim, eu te amo.”

“Você não vai me abandonar, vai?” ele me disse com sua voz rouca.

“Eu já falei que não, seu bobo.” eu respondi, indo para lá e para cá em meu balanço.

“Eu sei, mas isso não me parece o suficiente. Temo que você mude de ideia de uma hora para outra.”

Sempre fico chateada quando ele começa com esses papos. “Por que você acha isso?”

“Relacionamentos anteriores.” ele disse. O vento soprou e algumas folhas caíram entre nós.

“A qualquer momento você vai se cansar e perceber que isso tudo não passou de um erro. Vai levantar do balanço e vai me deixar aqui, igual ele deixou você.” Fiquei quieta, enterrando meus pés no chão para parar o balanço. Soltei um longo suspiro e, dando de ombros, respondi:

“É por isso que abandonam você.”

“Me desculpe.” ele disse, alguns instantes depois. Ficou visivelmente chateado. Não gosto de ser grossa, mas tem vezes que ele me tira do sério.

“Viu? É disso que estou falando, você provavelmente já está pensando em se levantar e ir embora.”

“Me pergunto se vou ficar paranoica quando tiver a sua idade.” voltei a me balançar, economizando as próximas três ou quatro perguntas que ele faria caso eu continuasse parada.

“Você tem que parar de ser tão inseguro. E para registro: ele não me abandonou. Você sabe disso.”

“Como pode ter tanta certeza?” ele perguntou. “Você deveria ter arrumado um jeito de amarrá-lo. Assim ele nunca sairia do seu lado.”

“Que coisa mais feia é essa? Quantas vezes já lhe falei que você não pode forçar alguém a amar você?”

“Pois eu deveria! Assim ele nunca teria abandonado nós dois, em primeiro lugar!” Levantei uma de minhas sobrancelhas, lhe dando uma bela encarada.

“Ah! Então é por isso essa rabugice toda?” ele ficou quieto. É claro que era por causa disso.

“Ele não abandonou ninguém, seu bobo. Nem eu, nem você. Já falei isso quantas vezes? Logo, logo ele está de volta.”

“Você tem certeza?” ele perguntou.

“Sim, eu tenho.” eu disse.

“Como você pode ter tanta certeza?”

“Porque ele prometeu que voltaria.”

“E se ele quebrar a promessa?” ele perguntou. “E se ele resolver mudar de ideia no meio do caminho e não quiser mais voltar?”

“Bom… Pra falar a verdade eu nunca pensei nessa possibilidade” respondi. Eu realmente nunca havia pensado nessa possibilidade.

“Então aí está. Esse é o seu problema.”

“O que?”

“Você acredita demais nas pessoas. Deixa que elas se aproveitem e tirem o que você tem de melhor. Espera sempre mais delas ao invés de menos. Se existe uma coisa que eu aprendi nessa vida é que as expectativas precisam ficar sempre no mínimo, caso contrário, você vai acabar se decepcionando. É sempre assim. Sem exceção.”

“Velho e rancoroso e pessimista. Além disso, sabe o que mais você é?” perguntei a ele.

“O que?”

Mais folhas caíram entre nós enquanto o sol desaparecia atrás das nuvens.

“Você é alguém com sérios problemas de autoestima!” Confesso que fiquei preocupada com o silêncio que seguiu após isso. É que é tão chato falar tantas vezes sobre o mesmo assunto que tem uma hora que você simplesmente não aguenta mais.

Nós já tivemos essa conversa milhões de vezes e me deixa muito triste ele ainda não ter se convencido de que é uma companhia agradável. Depois de algum tempo ele resolveu quebrar o gelo.

“Me desculpe… ” ele disse, secamente.

“Tudo bem.”

“Mas você falava a verdade?”

“Sobre o que?”

“Sobre achar que ele vai voltar. Era verdade?”

“Sim.”

“E você vai esperar aqui?”

“Sim.”

“Mas e se vier um furacão?”

“Eu me seguro em você.” eu respondi.

“Mas e se um javali vier correndo para cima de você?” ele perguntou.

“Eu subo em você.”

“Mas e se eu pegar fogo?”

“Eu não vou deixar isso acontecer.”

“Como pode ter tanta certeza?”

“Eu não deixaria atearem fogo em você.” eu disse. Nunca parei para pensar se algo assim realmente acontecesse.

“Mas e se algo assim realmente acontecesse… Nem assim você me abandonaria?”

“Não, eu não te abandonaria. Espera aí… Isso ainda é sobre você ser abandonado?

“Desculpa…” ele disse. Nós dois demos algumas risadas.

“É que eu não sei como você consegue…” ele disse. “Como você consegue continuar acreditando que ele vai voltar depois de tanto tempo?”

“Essa é a mágica do amor, seu bobo. O poder de acreditar que a outra pessoa também quer continuar se balançando com você.” olhei para o balanço vazio ao meu lado, e pela primeira vez, comecei a ter minhas dúvidas. Será que ele realmente voltaria? Será que eu estava errada esse tempo todo em esperar mais das pessoas? Senti um frio em minha barriga.

“Então está combinado, você finalmente me convenceu.” disse ele, com sua voz grave, interrompendo meus pensamentos.

“Convenci do que?”

“Logo, logo ele está aí. Até lá a gente continua esperando. Pelo menos a companhia é boa”. disse a árvore, enquanto eu me balançava para lá e para cá.

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SOBRE O AUTOR

Guilherme Martins

Escreve coisas e deixa o cabelo crescer de vez em quando. Publicou seu primeiro livro ano passado, uma coletânea de contos intitulada Os Fantasmas de Lídia.

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