Vida do Bardo #6 — Apenas uma sexta-feira

Apenas uma sexta-feira Era apenas uma sexta-feira quando Felipe descobriu que o fim viria das estrelas. Foi noticiado em todos […]

Apenas uma sexta-feira

Era apenas uma sexta-feira quando Felipe descobriu que o fim viria das estrelas. Foi noticiado em todos os lugares que um meteoro cairia sobre o planeta Terra. Mais precisamente, no Brasil. Sobre a sua cidade, para ser mais específico. Exatamente na região onde ele trabalhava, sendo totalmente preciso. O que por um lado era ótimo, já que Felipe odiava o seu trabalho e queria ver aquilo tudo explodindo já há algum tempo; o que por outro lado era ruim, pois significava que ele morreria. Felipe não queria morrer. Não sem dizer algumas coisas para algumas pessoas antes.

Felipe trabalhava há oito anos na mesma empresa. Ele cuidava de uma área do comércio eletrônico de uma loja de calçados. Começou como estagiário e quando se deu conta, já estava naquela fase em que o patrão não manda embora por conta das multas de quebra de contrato. Felipe estava preso naquele emprego sem futuro. Não que o emprego não tivesse futuro, mas não era aquele o futuro que Felipe queria para sua vida. O salário era bom e ele se acomodou. Isso acontece mais seguido do que se imagina.

Ele sempre chegava vinte minutos antes da primeira pessoa que chegava ao escritório. Via o seu chefe chegar – um cara que não sabia absolutamente nada do processo de trabalho deles e, por esse motivo, Felipe nunca entendeu como conseguiu chegar no cargo que chegara. Sempre atrasado, ele também via seu colega Maurício. Cada dia com uma desculpa diferente, mas como ele era camarada do chefe, conseguia se safar dos atrasos. Isso já vinha irritando Felipe há algum tempo. Isso e outras coisas…

“Vocês não vão acreditar, gente.” disse Maurício ao chegar no setor. Atrasado como nunca, desculpando-se como sempre. Felipe deixou seus fones de ouvido e apenas baixou o volume da música. Queria ver qual seria a desculpa do dia.

“O que foi, Maurício?” perguntou uma colega.

“Tem um meteoro em rota de colisão com o Brasil!”

Todo o escritório arregalou os olhos e prendeu a respiração enquanto ele continuava a falar. Felipe aumentou o volume de seus fones para não se irritar. Aquela sem sombra de dúvidas havia sido a pior desculpa até agora.

Ele voltou a trabalhar, enquanto viu Maurício gesticular para as pessoas e amarrá-las em suas teias de mentiras. Elas pareciam estar acreditando naquilo tudo, devido aos rostos apavorados que começaram a brotar por todo o escritório. Uma mulher pegou o celular e saiu correndo. Felipe sentiu seu sangue subir e seu coração acelerar. Ele ia acabar com aquela farsa e seria agora.

Felipe acessou os principais sites de notícias e sentiu um frio na barriga quando viu a manchete que estampava todos eles. Um meteoro realmente estava em rota de colisão com o Brasil e, ao que tudo indicava, ele cairia exatamente em sua cidade. A notícia havia sido veiculada há cerca de dois minutos. Felipe olhou para a janela e viu que, cinquenta andares abaixo, mais e mais pessoas começavam a se movimentar na rua.

Os sites disseram que a evacuação naquela região era inútil, não haveria tempo hábil para fugir do choque ou da onda de impacto. O outro lado do mundo sentiria aquele baque, que diria as cidades ao seu redor. Então era verdade. Um cometa cairia. Ele morreria. E essa nem era a pior parte do seu dia.

Felipe tirou seus fones de ouvido, levantou-se e interrompeu o discurso de Maurício:

“Vai se foder, Maurício!” ele disse. “Vai tomar no olho do teu cu!” Felipe sentiu um peso saindo de suas costas conforme liberava sua catarse. “Não quero morrer sem te dizer isso, puxa-saco de chefe. De que adiantou aquela puxação de saco toda, hein? hein??”

Maurício arregalou os olhos enquanto observava Felipe cuspir aquelas palavras. Ele estava completamente desarmado.

“E tem mais” Felipe começou a andar na direção da mesa de Maurício. “você é uma pessoa horrível! Fala mal de todos pelas costas e ainda por cima é um tremendo de um encosta lomba! Já tava por aqui de cobrir os teus furos. Esse meteoro veio na hora certa.”

Felipe parou há poucos centímetros de Maurício.

“E todo mundo sabe que essa merda é uma peruca. As pessoas só não tem coragem de falar.” Felipe arrancou o tapete da cabeça de Maurício e jogou no chão.

“Mas o que tá acontecendo?” disse o chefe deles, entrando no escritório. “Eu saio um segundo pra ir no banheiro e de repente isso daqui tá uma zona!”

Felipe olhou para seu chefe e de todas as coisas que ele queria dizer sobre todos aqueles anos, a única que conseguiu, a única que pareceu fazer sentido naquele momento foi:

Eu me demito.

***

“Então… Eu to deixando essa mensagem no seu correio de voz mais como um descargo de consciência do que qualquer outra coisa.” Felipe percebeu que todas as pessoas haviam descido de escada quando receberam a notícia do meteoro. O que não fazia o menor sentido, já que não se tratava de um incêndio ou algo do tipo. Era apenas ele dentro de uma caixa metálica que comportava até quinze pessoas. Felipe apertou o botão do térreo enquanto falava ao celular.

“Afinal de contas, o mais provável é que você nunca acesse isso já que… Bom, primeiramente quem é que ouve essas mensagens de correio eletrônico, certo? Segundo que… Bem, tem um meteoro caindo aqui e tal. Mesmo que você seja do tipo que checa essas mensagens, pode ser que não dê tempo.” Ele estava no quadragésimo segundo andar.

“Eu realmente sinto muito.” ele disse. “Por tudo. Mesmo. Queria ter pegado esse orgulho imbecil e engolido ele. Devia ter feito isso antes. Muito antes. Anos atrás…” Felipe baixou a cabeça.

“Só queria que você soubesse que é importante pra mim. Sempre foi. Mesmo depois de…” ele soluçou. “Bem, você sabe. É meio triste, sabe… A gente não se fala há tantos anos e…” Felipe levantou sua cabeça e se escorou no fundo do elevador. “Você é a única pessoa que eu queria conversar hoje. Espero que dê tudo certo aí… Quer dizer, ah… Você entendeu o que eu quis dizer.” ele apertou os olhos e sentiu um líquido quente escorrer por seu rosto. “Tchau, mãe. Eu te amo… Eu te amo muito…”

Ele desligou o celular e o colocou no bolso, respirando fundo.

Foi por volta do trigésimo andar que o elevador parou, deixando Felipe um pouco confuso. Ele deu um passo para trás e passou a mão sobre os olhos, tentando secá-los. As portas metálicas deslizaram para os lados e na fenda que surgiu entra elas, Felipe pôde ver. Era uma mulher. Ela era menor do que Felipe, o que queria dizer que ela poderia ser considerada uma pessoa baixa. Seu rosto estava pálido e assim que ela viu Felipe, pulou em cima dele e o abraçou.

“Qual seu nome?” ela disse em seu ouvido.

“Felipe.” ele disse, retribuindo o abraço e o sussurro. “E o seu?”

“Luíza.” ela o apertou mais, enterrando sua cabeça em seu peito. Ela tinha um cheiro adocicado que lembrava morango. Felipe acariciou os cachos dela e apoiou seu queixo sobre a sua cabeça.

“Dia ruim no trabalho?” ele disse.

Luíza soltou uma pequena risada que fora abafada no peito de Felipe.

“Fiquei surpreso com alguém pegando o elevador.” ele disse.

“Posso dizer o mesmo. O que não faz o menor sentido, já que–“

“Não é um incêndio ou algo do tipo.” Felipe a interrompeu.

“Exato!” ela foi pra trás e o olhou nos olhos.

Eles estavam entre os andares vinte e dezenove quando sentiram um grande tremor. O elevador travou, as luzes principais se apagaram e as de emergência se acenderam.

“Você acha que…”

“A gente não ia ter tempo de dizer ‘Você acha que…’ se fosse…” disse Luíza.

“Que maneira de ir, huh?”

“Podia ser pior.”

“Podia?” ela perguntou. “Como?”

“Ah, sei lá… To tentando ser otimista.” ele sorriu para ela. “Engraçado…”

“O que?”

“Não fosse esse meteoro, eu não teria feito e dito uma porrada de coisas nos últimos quinze minutos.” Luíza estava com a cabeça baixa. “Tipo isso.” Luíza se aproximou de Felipe e o beijou.

“Às vezes a gente só precisa de um apocalipse pra nos dar aquele empurrãozinho…” Felipe deu uma risada, retribuindo o beijo.

“É… Acho que você tá certo.” Luíza abriu seus olhos; eles se encontraram com os de Felipe e novamente seus lábios tomaram o mesmo rumo. Seus corpos se entrelaçaram e suas respirações aumentaram quando… As luzes emergenciais foram desligadas e as principais reativadas. O elevador tornou a descer.

“Pera aí.” Luíza afastou Felipe e apertou o botão de parar o elevador.

“O que foi?” ele perguntou. “O que você tá fazendo?”

“Todos estão se empurrando e debatendo lá embaixo, como animais indo pra um matadouro. Eu digo pra gente subir e aproveitar a vista.”

Felipe empurrou-a para o lado e apertou o botão para que subissem ao terraço. Uma vez mais seus lábios se encontraram enquanto o elevador chegava ao seu destino final. As portas se abriram e ambos caminharam na direção da borda do prédio. Eles olharam para baixo e viram o caos que se formava: pessoas gritando, correndo e brigando.

Luíza pegou na mão de Felipe e apertou bem forte. Ele olhou para o lado e, só agora, na luz do dia, percebeu o quão linda Luíza era. Seus olhos castanho-escuros, seus cachos negros, sua pele branquinha. Ele viu aquilo e sorriu. Por um segundo ele fechou os olhos e sentiu uma brisa morna bater em seu rosto, levando consigo tudo que o vento pode tirar dos ombros de uma alma cansada.

Foi então que ele olhou para o céu e viu um segundo sol, que aumentava, e aumenta, e aumentava… Uma chama vermelha ganhando corpo e luz e a forma que uma supernova ganha antes de se apagar. Brilhando como só um astro decadente pode brilhar momentos antes de se esvair em pó, lembranças e calor. E só agora Felipe se dava conta de que talvez aquela não fosse apenas uma sexta-feira.

 

 

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SOBRE O AUTOR

Guilherme Martins

Escreve coisas e deixa o cabelo crescer de vez em quando. Publicou seu primeiro livro ano passado, uma coletânea de contos intitulada Os Fantasmas de Lídia.

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