Vida do Bardo #7 — Achados e Perdidos

“Até quando você vai guardar essa velharia, meu bem?” ela me disse, com o rosto amarrotado e seus olhos semicerrados.

Achados e Perdidos

“Até quando você vai guardar essa velharia, meu bem?” ela me disse, com o rosto amarrotado e seus olhos semicerrados.

“Eu já estou aqui, lembra?” adoro o sorriso tenro dela logo pela manhã. Ainda mais em uma manhã tão especial como esta… normalmente seria um domingo ensolarado como qualquer outro, onde nos levantaríamos por volta das dez horas da manhã. Correção, eu me levantaria… ela sempre foi o preguiçoso de nós dois. Uma manhã de domingo como qualquer outra, onde lá por volta das onze ela estaria de pé e eu estaria sentado na nossa varanda, tomando meu café preto enquanto lia o último número de uma revistinha de super-herói qualquer. O nosso brunch estaria posto sobre a mesinha de jacarandá que o pai de um amigo fez para nós, assim que nos mudamos para cá. O sopro morno em meu rosto indicaria a primavera se aproximando.

Eu amo isso.

As crianças estariam brincando no jardim com o cachorro, depois que eu tivesse lhes dado o café da manhã. A maiorzinha sempre fazendo birra para comer e o pequeno comendo tudo que fosse colocado em seu prato. Como eles crescem rápido, parece que foi ontem que eu troquei suas fraldas… (por pior que eu fosse nessa tarefa). Seria uma manhã em que ela sentaria comigo, usando o meu velho roupão azul marinho, e comeria os ovos mexidos e as torradas e as salsichas e tomaria o copo enorme de suco de laranja que estaria posto sobre a mesa.

Depois disso ela perguntaria o que eu estaria lendo, e eu lhe faria um monólogo de quinze minutos explicando toda a cronologia por trás daquela revista que eu estaria lendo. No meio da explicação ela me interromperia, me dando um beijo e dizendo: meu nerd.

Após o brunch, nos sentaríamos no sofá e chamaríamos as crianças para arquitetar os planos para o resto do dia, afinal de contas, não se pode desperdiçar um domingo ensolarado preso dentro de casa. Isso é o que normalmente aconteceria em uma manhã de um domingo qualquer. Mas esta não era uma manhã de um domingo qualquer.

 Hoje eu me levantei mais cedo do que normalmente faço. Fiz o meu café preto e fiquei olhando a varanda pelo lado de dentro da casa. A chuva não deixou que eu fizesse o contrário. Sorte que o cachorro tem casinha. Dei uma passada no quarto das crianças para ver se estava tudo em ordem. Caramba, acho que ano que vem a maiorzinha vai precisar de um quarto só para ela… vai ser bom para o pequeno dormir sozinho também. Voltei para o quarto principal e fiquei olhando pra ela um tempão. Não sei dizer se passaram dois minutos ou duas horas.

O tempo é sempre relativo quando estou ao seu lado. Gosto de vê-la dormindo, tranquila enquanto a chuva cai lá fora e trás esse som reconfortante aqui para dentro. Gosto do jeito como seu cabelo fica espalhado por todo o travesseiro, às vezes invadindo o espaço do meu lado.

Às vezes… a quem eu quero enganar? Sempre invade, mas isso não vale só para o seu cabelo.

Acho que esse é o jeito dela de dizer que se sente confortável ao meu lado. A verdade é que adoro quando ela invade o meu espaço na cama, mesmo que eu lhe diga o contrário. O café logicamente esfriou. Larguei a caneca em cima do criado mudo e abri a minha gaveta de meias procurando a peça chave daquilo tudo. O objeto que serviu de estopim para o inicio daquilo que me traz mais felicidade.

Não gosto da ideia de que “as coisas estão escritas” ou de que “era para acontecer”, mas toda vez que olho para eles, fica cada vez mais difícil não acreditar no destino. O par de óculos mais lindos que eu já vi na minha vida. Encontrei-os durante uma festa de rock indie na minha juventude… ou era rock progressivo? Não sei dizer. Foram tantas festas naquela época que eu realmente não me lembro. Só sei que acabei encontrando e os guardando, como um suspiro de esperança de que um dia encontraria a dona daqueles óculos cheios de estilo.

E como têm estilo.

Durante alguns anos eles ficaram guardados, juntando poeira em meu quarto, na antiga casa em que eu morava. Minha irmã quis para ela, mas eu tive que explicar que aqueles óculos eram especiais. Pensei em me desfazer algumas vezes, mas algo lá no fundo me dizia que eles ainda fariam toda a diferença em minha vida. Engraçado como as coisas acontecem. Efeito borboleta e tal.

Aqueles óculos mudaram a minha vida.

Eu não estava em um momento muito bom na época. Não acho que o amor verdadeiro vá te encontrar quando você estiver no seu melhor. Acho que é quando você estiver mais perdido. Aqueles eram os óculos da mulher que hoje está deitada na minha cama.

Mãe dos meus filhos. Amor da minha vida. Anos depois, acabei descobrindo que ela nunca gostou muito de sair, ela recém havia saído de um relacionamento e estava naquela festa porque seus amigos a obrigaram a ir e disseram que ela precisava socializar. Ela os xingou um mês a fio por ter perdido seus óculos novinhos que recém havia retirado da óptica na tarde que antecedia a festa.

Ficamos perplexos quando descobrimos que havíamos frequentado a mesma faculdade durante o primeiro curso que fiz e que havíamos alguns amigos em comum. Ela riu quando falei que eu havia guardado os óculos durante todo aquele tempo. E ficou sem palavras quando descobriu que eu falava a verdade.

Hoje faz dez anos que nos encontramos pela segunda vez e que eu lhe devolvi os óculos. Dez anos que, vendo hoje, não teriam acontecido caso eu não tivesse escolhido aquela festa para ir, que não teriam acontecido caso eu não tivesse exagerado no álcool e tivesse caído no chão onde estavam os óculos, precisamente instantes após ela ter perdido.

Dez anos que não teriam acontecido caso ela não tivesse terminado seu namoro e não tivesse amigos que quisessem que ela socializasse (agradeço todos os dias aos seus amigos), ou talvez o fato de que o dono da óptica iria viajar na semana seguinte e só por isso seus óculos ficaram prontos naquela tarde, fazendo com que ela os perdesse por conta de algum cara que exagerou no álcool e esbarrou nela durante a festa, fazendo com que ela perdesse os óculos, fazendo com que toda essa equação maluca desse certo. Como falei antes, parece até destino.

Tire um elemento disso tudo e nós talvez nunca tivéssemos nos conhecido. Isso me assusta. Não ter conhecido ela me assusta. Por isso hoje é tão importante. Por isso essa manhã é tão especial.

“Hei, terra para astronauta!” ela me disse, com o rosto amarrotado e seus olhos semicerrados. “Ouviu o que eu disse? Você já me achou, não precisa mais guardar essa velharia. Volta pra cama que com essa chuva eu não vou te deixar ir a lugar algum.” adoro o sorriso tenro dela pela manhã. Ainda mais em uma manhã tão especial como esta…

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SOBRE O AUTOR

Guilherme Martins

Escreve coisas e deixa o cabelo crescer de vez em quando. Publicou seu primeiro livro ano passado, uma coletânea de contos intitulada Os Fantasmas de Lídia.

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